-Vou pra janela, vou pra janela! A luz acabou!
Quando era criança adorava ir para a janela observar o breu e o comportamento das pessoas quando acabava a luz durante um temporal. Via todo mundo correr para pegar uma vela, ouvia aquele burburinho e depois de um tempo via as janelas iluminadas por aquela luz amarelada e fraquinha. Algumas pessoas ficavam andando de um lado a outro, como que num desespero para que a luz voltasse logo. E eu, torcia para demorar o máximo possível!
Tudo escuro, raios e trovões abalando os prédios, aguaceiro sem fim! Que maravilha! Só assim era possível ver o mundo de um jeito mais natural, mas logo percebi o quanto o planeta se tornou dependente das tecnologias. Eu inclusive...
Quando acendemos a luz o mundo mudou! De uma maneira geral as pessoas, que até então viviam sem ela, passaram a depender tão absurdamente disso que hoje é quase impensável viver sem luz ou eletricidade. Antigamente não havia isso e as pessoas acendiam fogueiras, dormiam mais cedo e levavam uma vida mais saudável. Nada disso é novidade.
O organismo humano é sensível a tudo. Temos hormônios para acordar e dormir. Quando a luz do sol começa a dar sinal durante o amanhecer o cérebro capta esta informação e detona uma cascata hormonal para despertarmos. E quando o sol se põe, outra cascata de hormônios é detonada indicando a hora de dormir, pois o cérebro percebe a ausência de luz. Com o advento da luz elétrica isso mudou radicalmente; agora o cérebro encontra mais dificuldades para se orientar já que muitas luzes ficam acesas. Antes, a luz natural acabava por volta das 6 da tarde e os hormônios do sono entravam em funcionamento. Agora, acendemos as luzes e permanecemos mais tempo acordados. Isso gera um efeito extremamente estressante para o corpo, que tem dificuldades para identificar com precisão a hora de detonar a fabricação de hormônios do sono, logo temos problemas para despertar e conseqüentemente, para dormir. A maioria de nós precisa do despertador para acordar. Levamos uma vida estressada, estamos muitas vezes cansados e irritadiços e nem imaginamos o por quê, não é?
Estamos ligados a mil plugues, como em Matrix. Acende a luz, liga o PC, atende o celular, liga a TV, fogão automático, geladeira automática, lava-roupas, lava-louças, controle-remoto, indivíduo automático, carro, máquinas para fazer tudo por nós... Isso me lembra outro filme: Lorde Darth Vader em Star Wars, plugado, maquinado, autômato. E o Luke com seu braço mecânico? Será que chegaremos a tanto? Acho que sim!
O futuro já chegou! E agora, o que vem depois do futuro?
É difícil estabelecer uma fronteira entre o que é bom e ruim no âmbito da tecnologia, sem que isso pareça maniqueísta ou ainda, se individualmente essas coisas são úteis ou não. Mas será que precisamos de tantos aparatos eletrônicos, elétricos e portáteis? Ou é impossível viver hoje de modo mais frugal?
Vamos a mais uma lista:
Cafeteira é fundamental? Não até você começar a usá-la. Preferia não tê-la, mas minha sogra comprou uma, aí já viu!
Microondas são realmente necessários? Acho que não, a comida fica estorricada, emborrachada e às vezes fria.
Celulares? Melhor não tê-los, mas sem obtê-los, como atendê-los?
Lava-roupas? Sim, definitivamente são úteis.
Lava-louças? Há dias em que desejo ter uma!
Computadores? Não vivo bem sem eles...
Carros? Há lugares onde não ter um, é absolutamente impraticável. Não é triste isso?
A questão é que não queremos parecer hipócritas ao dizer que estas coisas imundam o planeta, mas não podemos viver sem. Então, qual é o limite aceitável, individual e coletivo dessa questão? Existe um meio termo? Acho que sim, mas quando veremos na prática, aparatos sendo fabricados com tecnologias acessíveis e não poluentes?
Voltando a vaca fria, até hoje, quando a luz acaba e vou até a janela, me deixo levar pelos pensamentos, agora não tão pueris, e penso, até que ponto ainda sou humana de verdade e conservo em mim as habilidades naturais para viver de modo independente das tralhas produzidas e sustentadas por nós? Sobreviveria sem isso? Como? Por quanto tempo?
E você?
A única coisa que sei é que há mais perguntas que respostas. A luz acaba voltando, cedo ou tarde, e com ela, vozes em uníssono ressoam pelos quatro cantos num coro aliviado e feliz.
Flô
